quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O Ponto G (parte 2)

Eu me lembro de quando ainda era bem menina – 14, 16 anos - e adorava uma determinada revista, proibida para menores de 18 anos, mas que falava de sexo para adolescentes com a mais absoluta irresponsabilidade, como se fazer sexo com 13, 14, 15 anos fosse alguma coisa tão natural quanto a prática desportiva nas escolas.
A mesma revista que tratava sobre a primeira maquiagem, falava com total desenvoltura sobre transar ou não no primeiro encontro!
E mais - ia de sexo oral a sexo anal, com fotos exibindo lindos rapazes impúberes e meninas sem quadris em poses ardentes, para alegria de nossos olhos virgens e desespero dos nossos pais. Hoje entendo o que eles passaram.
A verdade é que a informação contida naquelas páginas ultrapassava em muito o que realmente tínhamos capacidade para absorver, entender e, de certa forma, induzia muita menininha despreparada ao erro.
Embora eu tenha chegado “invicta” até bem mais tarde, naquela época eu me exibia como a própria “Marta Suplicy do cerrado”, a maior sexóloga do momento – sabia tudo, sem nunca ter feito.
Passados anos (quantos, 15, 20...) surpreendo-me agarrada a uma “certa” revista feminina já mencionada por esta coluna, lendo avidamente, mais uma matéria imperdível sobre sexo.
Alguma coisa se mexeu lá nas minhas lembranças. E me flagrei como uma tardia adolescente engolindo com os olhos a matéria, as fotos e todas as dicas mais quentes (agora uma revista para mulheres adultas).
Isolei o animal fêmea-fútil e fiz uma análise fria, utilizando uma certa parte do cérebro que não tem gênero e que eu não sei onde fica.
- Meu Deus, o mundo se transformou numa imensa cama redonda de motel, onde todo mundo come todo mundo - de todo jeito - e só eu não vi (nem senti, nem comi)?!? Ou novamente estou lendo a revista errada?
Amiga, esta coluna não se presta a perseguir insistentemente tal revista, nem a falar mal de nenhum outro meio de comunicação, portanto, façamos justiça.
Neste ponto, outras revistas – e outros veículos - acabam cometendo o mesmo tipo de erro: uma excessiva glamourização, mitificação, complicação do sexo.
Somos induzidos a acreditar que fazemos pouco sexo ou, o que é pior, fazemos errado.
Somos levadas a crer, que sem aquela roupa, ou aquele curso incrível sobre massagem tailandesa perderemos nossos homens.
Somos escravizados pela ditadura do corpo perfeito, sem o qual somos seres inferiores.
Somos finalmente subjugados pelos papas da sociedade de consumo, criando diariamente, enquanto dormimos inocentes, as nossas mais novas necessidades primordiais, utilizando-se simplesmente daquilo que não passava, até então, de um dos nossos instintos básicos – o sexo.
A era do “sexo-vende-tudo” quer que acordemos, comamos, trabalhemos, vivamos enfim, com sexo na cabeça.
Não se engane, amiga. Assim como você, eu adoro sexo e tudo o que ele pode me dar de bom.
Mas estou literalmente de saco cheio dessas fórmulas prontas para “enlouquecer o seu homem”, “uma noite absolutamente perfeita”, “liberando seu lado selvagem”, e sacanagens várias de A a Z. Sempre atrás de tudo, existe um novo perfume, uma nova meia, uma marca de bebida, até mesmo cera para assoalho.
Entenda meu desabafo: nada contra planejar uma noite linda, com velas perfumadas, boa música e muito amor. Mas também não precisamos sofrer, idealizando eternamente uma cena de “9 semanas e meia de amor”, que dificilmente se concretizará.
Tá bom, de vez em quando, lingerie preta, cinta liga, vinho e tal, pode dar uma esquentada e tanto no relacionamento. Uau!
Mas não vai me enganar que você também não gosta daquele amorzinho no meio da semana, sem muito malabarismo (porque o outro dia tem batente), mas com muito carinho, daquele jeitinho que vocês dois já aprenderam, ali assim, tradicional, até com uma das partes do pijama por tirar, para depois dormir abraçadinho...
Pois é, menina, importante é fazer e fazer com amor e responsabilidade.
Pra mim, pobre mortal, essas fórmulas todas, posições de verdadeiros contorcionismos, creminhos mágicos e acessórios de toda espécie são soturnamente criados em redações, para vender cada vez mais um pouco de tudo. Mas os efeitos colaterais são mulheres cada vez mais ansiosas e frustradas, a procura do Ponto G, Ponto Q, Ponto R, etc, ao invés de simplesmente estarem aproveitando o melhor momento do dia, pura e simplesmente fazendo amor.

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