quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Licença poética

Então me vejo aqui, meio sem entender essa história da mudança da ortografia ou sei lá o que seja isso.
Meu coração continua fazer versos do mesmo jeito torto, na língua que conhece - a mesma que matou Camões, Pessoa, Bilac, Drummond e Quintana...
Sobreviverei eu?
Versos não se importam com isso. Falam numa linguagem própria, à parte da língua. Saberão esses senhores da mudança do que fala nossa dor? Conheceriam a nossa dor? Não sabem nada. Não são poetas. Nem me importa. Continuo eu, só do que sei. Corrijam-me. Venham atrás. Meus versos vão à frente. Falam de sentimento. Não de facilitar.
Se eu quisesse facilitar, não faria versos. Faria equações matemáticas. (Falo por você, Quintana.)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Versos tolos


É tarde, madrugada alta e escura.
Por entre as nuvens no céu adivinho a lua
Que em vão tento trazer à terra
Para cobrir de luz tua pele nua.

Da fragilidade do instante
À eternidade de um único momento
A esperança do renascimento
No suspirar profundo do amante.

Guardar-te em meu seio procuro
Como quem tenta obscurecer a luz
Como um cego num deserto errante
Aperta contra o peito, o terço e a cruz.

Versos de amor são só lágrimas doces
Que saltam do coração ao papel.
São carneirinhos no campo em disparada
São gotas de orvalho sob o céu.

Ser dona do tempo não posso
Nem de tua alma quero me apossar.
Rabisquei versos tolos num lamento, amor
Na febre da vontade de te amar.

A verdade sobre os contos de fadas

A verdade é uma só: príncipes só aparecem no final da história, não têm nome, entram mudos e saem calados.
Princesas são patricinhas limitadas à condição de esperar o príncipe.
Reis são bocós, muitas vezes cornos e os últimos a saberem qualquer coisa.
Quem sobrou? A Madrasta, a Feiticeira, aquela que faz toda a história acontecer, sempre tão injustiçadas...
Sempre fui fã das madrastas. Agora mais que nunca!!!

SER

Queria saber quem eu sou...
Mas só vejo uma pálida lembrança de quem fui, um esboço de quem queria ser, um rabisco de quem me apresento...
Ser é um verbo difícil de se conjugar, diria Quintana. Um descuido e já era...

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Devaneios etílicos e sãos

Se te espero, a espera é doce e perfumada.
Mesmo que não venhas, tua ausência faz companhia, e a saudade, melodia.
Se te espero, o tempo não é bom nem ruim, é só o que antecede a união, eterno e fugaz, instante e eternidade.
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Estranhos são nossos caminhos. Por que estranhos somos nós.
Nossas certezas, convicções, sentimentos.
Nossas falhas, descobertas, recomeços. Idas e vindas. Tropeços.
Estanhos e íntimos somos pra nós mesmos.
Um dia, ou uma noite, nos deparamos com alguém, que não sabíamos que éramos nós.

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Brinco de dançar.
Jogo a cabeça, os quadris, invento passos.
O cabelão ajuda.
Pareço jovem...
Mas o coração não se engana.
Dança nenhuma engana o tempo que me comove.

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Viver é rasgar os véus.
Desnudar os dias.
Inventar trilhas.
Viver é aprender, esquecer e reaprender.
Fazer de novo, diferente.
Viver é reinventar a vida, todos os momentos.
Por que a história só existe quando a contamos. Antes disso é expectativa ou covardia.
Para enxergar a vida é preciso esquecer o próprio eixo, desviar-se do próprio umbigo.
O caminho mais fácil não é o da luz. Essa é a grande ilusão.
Continuo dirigindo.

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As mulheres da minha vida andam só.
Marias ou não, andam só.
Marias ou não, carregam pesada cruz.
Marias ou não, sem ou com amor, andam sós.
Seus – nossos – caminhos se confundem, se cruzam, se parecem.
Loucas, santas, confusas, guerreiras, mansas, eternamente prisioneiras de seus hormônios e suas sinas.
As mulheres de minha vida se misturam comigo.
Às vezes são como eu.
Às vezes sou eu.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

João Neiva Chega ao Céu

Montado em seu alazão, vestido como um bom boiadeiro, João Neiva chegou ao céu. Apeou e São Pedro, dono das chaves, veio recebê-lo.
- Boa Tarde!
- Boas tardes! Por acaso, o senhor pode me dizer que lugar é esse?
- Primeiro, eu faço a pergunta principal: Quem é você?
- Homessa! Não sabe quem eu sou? Sou João Neiva, conhecido, cantado em verso e prosa por todas as Minas Gerais!
- Como vai, Seu João? Eu sou São Pedro e o senhor está no céu.
- Quer dizer então que morri?
- Bem, Seu João, pela sua ficha vejo que o senhor viveu até os 98 anos. É uma longa vida. Sua morte foi natural, decorrência da muita idade...
- Menino! E não é que esse lugar parece mesmo o céu? Isso quer dizer que vou encontrar todo aquele povo que já morreu antes de mim? Mamãe, papai, meus irmãos...Hildete! Cadê Hildete?
- Calma, Seu João! O Senhor vai ter muito tempo pra encontrar todo mundo. Aliás, toda a eternidade. Por isso antes vamos bater um papinho. Preciso acabar de preencher sua ficha e faltam alguns dados.
- Ora, moço, eu sempre gostei de um dedinho de prosa, mas é que é a primeira vez que proseio depois de morto!
- Há, há! Bem que aqui está escrito que o senhor é um pândegas! Seu João, o senhor tem que entender que para ficar aqui no céu é preciso estar dentro dos requisitos, afinal , esta é uma condição eterna! Vejo que o senhor não foi um homem lá muito religioso...
- È verdade, Seu Pedro...
- São. São Pedro.
- O senhor me desculpe, mas é que esses assuntos santos quem sempre resolveu na família foi minha irmã mais velha, a Negra. E como ela já rezava bastante, foi até freira e tudo, pensei que já tinha rezado pra mim também.
- Seu João, D. Negra é uma velha amiga nossa. Conversa com toda a turma aqui de cima há tempos. É verdade que ela sempre pediu por toda a família e isso inclui o senhor...
- Pois então... Ademais, também tive um irmão padre!
- Frei. Frei Marçal. Um amigo querido que temos por aqui. Grande alma!
- Então essa parte está resolvida, quem tem irmãos como os meus, além de uma esposa devota de Nossa Senhora, como era a minha Hildete...
- Seu João... Pois bem. Passemos para outro item. O senhor não tinha lá uma boca muito santa... era um tal de chamar o “outro” quando estava tocando o gado...
- Vaca, diabo!
- Por favor, não repita isso!
- O senhor me desculpe, Seu Pedro, mas era o costume. Também não era com maldade, não, era o jeito de falar...
- São, por favor, São Pedro.
- Se o senhor faz questão...
- Seu João, aqui está escrito que o senhor tinha... como direi, um gosto pela troça, uma certa mania de fazer piada com os outros...
- Olha, esse menino, quem escreveu isso aí não prestou atenção. É bem verdade que gostei de contar umas anedotas, coisa e tal, mas nunca fiz mal a ninguém. Pode perguntar a qualquer um que conheceu João Neiva.
- Não fala sobre fazer mal... mas o senhor aprontou bastante, Seu João! Que história era aquela de se fazer passar por vidente, cartomante, quiromante?
- Nada de mais. Falei alguma coisa ruim? Falei aquilo que cada um queria ouvir. Isso fez mal a alguém? Fez nada.
- Mas era mentira, Seu João, e mentira é uma coisa muito feia!
- Mentirinha besta, bobagem!
- E aquelas manias de pregar sustos nos outros, e as histórias de assombração!
- Ah, Seu Pedro, o senhor está sendo muito bravo! Primeiro não são histórias, são causos e isso é coisa lá de nossa terra, faz parte da nossa cultura, não é assim que se fala?
- São.
- São o quê?
- São Pedro, é São Pedro!!!
- Calma! Foi um descuido.
- Seu João, o senhor foi um grande zombeteiro! Conta direito como foi aquela história do patuá e da mulher grávida! Sabia que isso foi abusar da fé alheia?
- Abusar? De jeito nenhum! Pois num deu certo, terminou tudo bem? Então, já diziam os antigos, “mais vale a fé que o pau da barca”. Seu Pedro, o senhor está querendo achar algum motivo para eu não ficar no céu, é? E a meu favor, não tem nada não? Uma vida de trabalho, dez filhos, sabe Deus quantos netos e bisnetos, nada conta aí nessa sua ficha, não?
- Pera lá, Seu João. Esse é o meu trabalho. E eu sei o que estou fazendo.
- E como vou saber?
- Saber o quê?
- Que o senhor sabe o que está fazendo?
- Seu João, o senhor está me confundindo!
- Viu? Se está confuso é porque pode não saber o que está fazendo. Faça-me o favor de olhar aí o lado bom da ficha, Seu Pedro.
- Ah, é hoje! Estou precisando de férias, Senhor!
- Depois que botar eu e meu alazão pra dentro, pode ir.
- Seu João, o senhor tem realmente mais pontos a favor que contra.
- Então, dá licencinha e me deixa logo caçar um cafezinho aí dentro, ou uma boa pinguinha...
- ...
- Já vi que aqui ninguém bebe, né? Tudo bem, aposto que não ia ter da boa mesmo.
- Como eu estava dizendo, o senhor tem realmente mais pontos a favor que contra, mas...
- Mas o que, homem de Deus?
- É que isso pode não bastar. Pode ser que sua pontuação só lhe dê direito ao purgatório...
- O que? O senhor só pode estar brincando! Purgatório é aquele lugar onde nada acontece, em que a gente fica esperando uma vaga em cima ou embaixo?
- ...é mais ou menos isso, Seu João.
- Homessa! E o senhor acha que sou homem de meio termo? Então, ta , se não quiser mesmo que eu fique aqui em cima, vou ter com o diabo.
- Em nome de Deus, homem, não diga uma coisa dessas!
- Mas vou logo avisando que vou dar trabalho. Aliás, primeira coisa, vou contar como a recepção aqui é bagunçada.
- Seu João, por favor!
O barulho acabou atraindo a atenção de outras pessoas.
- Mas, afinal o que está acontecendo aqui?
- E esse, quem é?
- Eu sou São João!
- Enfim, você apareceu, xará! Quer fazer o favor de dizer pra esse tal Seu Pedro que eu posso entrar aí?
- É São!!! É São!!!
- Pedro, você está cometendo o pecado da ira!
- A culpa é dele!
- Ih, agora, foi falso testemunho! Ele já estava nervoso antes de eu chegar. Quer até pedir férias.
- João, me acuda! Cuide da ficha deste homem, por favor!
- Agora sim, de João pra João.
- São.
- O que?
- É São João.
- Tá certo. Gostei. Pode me chamar de São João Neiva.


Obs.: Na foto, o lendário João Neiva, meu avô,  de mãos dadas com minha prima Helen. Prima, pra você, com muito carinho.

Espera?

Enquanto não chega o fim do mundo, é no teu beijo que quero sentir tremor.
A terra que espere para se abrir.
Enquanto as trombetas não tocam, é no teu corpo que vou me enroscar e esquecer...
Que venham as chuvas, os raios, os meteoros! Dentro de mim, há muito sinto a tempestade. Agora, que se faça o caos!
Enquanto não chega o fim dos tempos, não vou perder meu tempo tentando entender ou explicar... te quero, só te quero!
(...e é no quente do pecado, escondido entre meus peitos, que vou te guardar...)
Antes que o mundo se acabe –
Antes que os anjos anunciem o fim –
Antes que a poesia desista de nos provocar –
Espera um minuto. Eu vou.


sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Debut

Com você seria diferente.
O primeiro beijo teria sabor de primeiro beijo
Jeito de quinze anos,
Tremor de adolescência.

Com você, qualquer palavra de amor pareceria original.
Toda música, a primeira dança.
Toda dança, valsa de debut.

Com você, fazer amor seria como a primeira vez.
Acordaria com um sorriso nos lábios,
Imaginando que alguma coisa mudou,
Entre a Terra e o Universo.

Com você, se a esperança não me abandonar,
Tudo pode ser diferente.

Foto by: Marcelo Guerato - http://www.flickr.com/photos/guerato/

Olhos Janelas

Das janelas anônimas
- silêncio –
Vaza poesia,
Escorrendo pelas paredes,
Escuridão melando a noite

Dos seus olhos semi-abertos
- Acalmia –
Vaza poesia
Escorregando até seu riso,
Amor melando um beijo...