quinta-feira, 14 de outubro de 2010

João Neiva Chega ao Céu

Montado em seu alazão, vestido como um bom boiadeiro, João Neiva chegou ao céu. Apeou e São Pedro, dono das chaves, veio recebê-lo.
- Boa Tarde!
- Boas tardes! Por acaso, o senhor pode me dizer que lugar é esse?
- Primeiro, eu faço a pergunta principal: Quem é você?
- Homessa! Não sabe quem eu sou? Sou João Neiva, conhecido, cantado em verso e prosa por todas as Minas Gerais!
- Como vai, Seu João? Eu sou São Pedro e o senhor está no céu.
- Quer dizer então que morri?
- Bem, Seu João, pela sua ficha vejo que o senhor viveu até os 98 anos. É uma longa vida. Sua morte foi natural, decorrência da muita idade...
- Menino! E não é que esse lugar parece mesmo o céu? Isso quer dizer que vou encontrar todo aquele povo que já morreu antes de mim? Mamãe, papai, meus irmãos...Hildete! Cadê Hildete?
- Calma, Seu João! O Senhor vai ter muito tempo pra encontrar todo mundo. Aliás, toda a eternidade. Por isso antes vamos bater um papinho. Preciso acabar de preencher sua ficha e faltam alguns dados.
- Ora, moço, eu sempre gostei de um dedinho de prosa, mas é que é a primeira vez que proseio depois de morto!
- Há, há! Bem que aqui está escrito que o senhor é um pândegas! Seu João, o senhor tem que entender que para ficar aqui no céu é preciso estar dentro dos requisitos, afinal , esta é uma condição eterna! Vejo que o senhor não foi um homem lá muito religioso...
- È verdade, Seu Pedro...
- São. São Pedro.
- O senhor me desculpe, mas é que esses assuntos santos quem sempre resolveu na família foi minha irmã mais velha, a Negra. E como ela já rezava bastante, foi até freira e tudo, pensei que já tinha rezado pra mim também.
- Seu João, D. Negra é uma velha amiga nossa. Conversa com toda a turma aqui de cima há tempos. É verdade que ela sempre pediu por toda a família e isso inclui o senhor...
- Pois então... Ademais, também tive um irmão padre!
- Frei. Frei Marçal. Um amigo querido que temos por aqui. Grande alma!
- Então essa parte está resolvida, quem tem irmãos como os meus, além de uma esposa devota de Nossa Senhora, como era a minha Hildete...
- Seu João... Pois bem. Passemos para outro item. O senhor não tinha lá uma boca muito santa... era um tal de chamar o “outro” quando estava tocando o gado...
- Vaca, diabo!
- Por favor, não repita isso!
- O senhor me desculpe, Seu Pedro, mas era o costume. Também não era com maldade, não, era o jeito de falar...
- São, por favor, São Pedro.
- Se o senhor faz questão...
- Seu João, aqui está escrito que o senhor tinha... como direi, um gosto pela troça, uma certa mania de fazer piada com os outros...
- Olha, esse menino, quem escreveu isso aí não prestou atenção. É bem verdade que gostei de contar umas anedotas, coisa e tal, mas nunca fiz mal a ninguém. Pode perguntar a qualquer um que conheceu João Neiva.
- Não fala sobre fazer mal... mas o senhor aprontou bastante, Seu João! Que história era aquela de se fazer passar por vidente, cartomante, quiromante?
- Nada de mais. Falei alguma coisa ruim? Falei aquilo que cada um queria ouvir. Isso fez mal a alguém? Fez nada.
- Mas era mentira, Seu João, e mentira é uma coisa muito feia!
- Mentirinha besta, bobagem!
- E aquelas manias de pregar sustos nos outros, e as histórias de assombração!
- Ah, Seu Pedro, o senhor está sendo muito bravo! Primeiro não são histórias, são causos e isso é coisa lá de nossa terra, faz parte da nossa cultura, não é assim que se fala?
- São.
- São o quê?
- São Pedro, é São Pedro!!!
- Calma! Foi um descuido.
- Seu João, o senhor foi um grande zombeteiro! Conta direito como foi aquela história do patuá e da mulher grávida! Sabia que isso foi abusar da fé alheia?
- Abusar? De jeito nenhum! Pois num deu certo, terminou tudo bem? Então, já diziam os antigos, “mais vale a fé que o pau da barca”. Seu Pedro, o senhor está querendo achar algum motivo para eu não ficar no céu, é? E a meu favor, não tem nada não? Uma vida de trabalho, dez filhos, sabe Deus quantos netos e bisnetos, nada conta aí nessa sua ficha, não?
- Pera lá, Seu João. Esse é o meu trabalho. E eu sei o que estou fazendo.
- E como vou saber?
- Saber o quê?
- Que o senhor sabe o que está fazendo?
- Seu João, o senhor está me confundindo!
- Viu? Se está confuso é porque pode não saber o que está fazendo. Faça-me o favor de olhar aí o lado bom da ficha, Seu Pedro.
- Ah, é hoje! Estou precisando de férias, Senhor!
- Depois que botar eu e meu alazão pra dentro, pode ir.
- Seu João, o senhor tem realmente mais pontos a favor que contra.
- Então, dá licencinha e me deixa logo caçar um cafezinho aí dentro, ou uma boa pinguinha...
- ...
- Já vi que aqui ninguém bebe, né? Tudo bem, aposto que não ia ter da boa mesmo.
- Como eu estava dizendo, o senhor tem realmente mais pontos a favor que contra, mas...
- Mas o que, homem de Deus?
- É que isso pode não bastar. Pode ser que sua pontuação só lhe dê direito ao purgatório...
- O que? O senhor só pode estar brincando! Purgatório é aquele lugar onde nada acontece, em que a gente fica esperando uma vaga em cima ou embaixo?
- ...é mais ou menos isso, Seu João.
- Homessa! E o senhor acha que sou homem de meio termo? Então, ta , se não quiser mesmo que eu fique aqui em cima, vou ter com o diabo.
- Em nome de Deus, homem, não diga uma coisa dessas!
- Mas vou logo avisando que vou dar trabalho. Aliás, primeira coisa, vou contar como a recepção aqui é bagunçada.
- Seu João, por favor!
O barulho acabou atraindo a atenção de outras pessoas.
- Mas, afinal o que está acontecendo aqui?
- E esse, quem é?
- Eu sou São João!
- Enfim, você apareceu, xará! Quer fazer o favor de dizer pra esse tal Seu Pedro que eu posso entrar aí?
- É São!!! É São!!!
- Pedro, você está cometendo o pecado da ira!
- A culpa é dele!
- Ih, agora, foi falso testemunho! Ele já estava nervoso antes de eu chegar. Quer até pedir férias.
- João, me acuda! Cuide da ficha deste homem, por favor!
- Agora sim, de João pra João.
- São.
- O que?
- É São João.
- Tá certo. Gostei. Pode me chamar de São João Neiva.


Obs.: Na foto, o lendário João Neiva, meu avô,  de mãos dadas com minha prima Helen. Prima, pra você, com muito carinho.

6 comentários:

  1. Amiga adorei sua crônica! Amei São João Neiva que mesmo num outro plano me trouxe lágrimas de alegria e felicidade aos olhos!

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  2. Nossa.. que gostoso de ler!!! Parabéns! :D

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  3. Me diverti lendo a história de São João Neiva. Maravilha de crônica. Muito bom mesmo, estou rindo até agora.

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  4. Prima... meus olhos enchem de lagrimas qndo lembro do vovô... E qndo sinto saudade sempre lembro da Homenagem João Neiva chega ao Céu....
    Linda a foto... Como diz teu Pai que é meu tio Querido... Dondete e João Neiva...

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  5. Lembrei do meu avô. Ele não era extrovertido assim.
    Ele não contava tantas anedotas assim.
    Ele não era quiromante.
    Ele nem era parecido com o teu.
    Mas me lembrei do meu avô e isso é que importa
    Beijo, belo texto

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